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quarta-feira, 16 de junho de 2010







A cena lembra uma exibição de cachorros. Jessé exibe seus filhos um de cada vez, como cães com coleiras. Samuel examina-os de vários ângulos, pronto, por mais de uma vez, para dar-lhes a distinção máxima; mas, em cada uma delas, Deus o impede.


Eliabe, o mais velho, parece a escolha lógica. Imagine-o como o Casanova da vila: cabelos ondulados, maxilar saudável. Ele usa uma calça jeans apertada e tem um sorriso perfeito. Este é o cara, pensa Samuel.


"Errado", diz Deus.


Abinadabe entra como o segundo irmão e concorrente.Você acha­ria que quem havia acabado de entrar era um modelo de uma revista masculina. Terno italiano. Sapatos de couro de crocodilo. Cabelos negros, alisados para trás com brilhantina. Quer um rei estiloso? Abinadabe tem esse perfil.


Deus não está interessado em estilo. Samuel pede para que entre o terceiro irmão, Samá. Ele é estudioso, aplicado. Lucraria com um transplan­te de carisma, mas tem massa cinzenta sobrando. É formado pela Universi­dade Estadual e está de olho em um programa de pós-graduação no Egito. Jessé sussurra para Samuel: "Orador oficial da Escola de Belém".


Samuel fica impressionado, mas Deus não. Deus faz o sacerdote se lembrar: "O SENHOR não vê como o homem: o homem vê a aparên­cia, mas o SENHOR vê o coração" (1 Samuel 16:7).


Sete filhos passam. Sete filhos fracassam. O desfile pára.


Samuel conta os irmãos: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.


— Jessé, você não tem oito filhos?


Uma pergunta semelhante fez a madrasta de Cinderela contorcer-se. Jessé provavelmente fez o mesmo. "Ainda tenho o caçula, mas ele está cuidando das ovelhas" (16:11).


O termo hebraico para "caçula" é haqqaton e indica mais do que idade; sugere posição. O haqqaton era mais do que o irmão caçula; era o irmãozinho — o tampinha, o hobbit, o "bêêê-bêêê".


Cabe ao haqqaton da família cuidar das ovelhas. Coloque o menino onde ele não possa causar problemas. Deixe-o com cabeças cheias de lã e céu aberto. E é ali que encontramos Davi, no pasto com o rebanho.


As Escritu­ras dedicam 66 capítulos à sua história, deixando-o, em número de refe­rências, atrás somente de Jesus. O Novo Testamento menciona seu nome 59 vezes. Ele estabelecerá e habitará a cidade mais famosa do mundo, Jerusalém. O Filho de Deus será chamado o Filho de Davi. Os maiores salmos fluirão de sua pena. Iremos chamá-lo de rei, guerreiro, menestrel e matador de gigantes.


Mas, hoje, ele nem está incluído na reunião familiar; é simplesmente uma criança esquecida e descredenciada, realizando uma tarefa doméstica em uma cidade que não passa de um ponto no mapa.


O que levou Deus a escolhê-lo? Queremos saber. Realmente que­remos saber. Afinal, andamos pelo pasto de Davi, o pasto da exclusão.


Estamos cansados do sistema superficial da sociedade, de sermos clas­sificados de acordo com os centímetros de nossa cintura, os metros qua­drados de nossa casa, a cor de nossa pele, o modelo de nosso carro, a marca de nossas roupas, o tamanho de nosso escritório, a presença de diplomas, a ausência de espinhas. Não estamos cansados desses joguinhos?


O trabalho duro é ignorado. A devoção não compensa. O chefe prefere a segmentação ao caráter. O professor escolhe alunos mimados em vez de alunos preparados. Os pais exibem seus filhos preferidos e deixam os nanicos lá fora no campo. Oh, o Golias da exclusão!


Você está cansado dele? Então é hora de parar de olhar para ele. Quem se importa com o que ele ou eles pensam? O que importa é o que o seu Criador pensa. "O SENHOR não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o SENHOR vê o coração" (16:7).


Essas palavras foram escritas para os haqqatons da sociedade, os que se sentem como peixes fora d'água, excluídos. Deus usa todos eles.


Moisés fugiu da justiça, mas Deus o usou.


Jonas fugiu de Deus, mas Deus o usou.


Raabe dirigia um bordel, Sansão correu para os braços da mulher errada, Jacó correu em círculos, Elias correu para as montanhas, Sara perdeu a esperança, Ló andou com a multidão errada, mas Deus usou a todos eles.


E Davi? Deus viu um adolescente servindo-lhe lá no meio do mato, em Belém, entre o tédio e o anonimato, e, com a voz de um irmão, Deus chamou: "Davi! Entre. Alguém quer vê-lo". Os olhos humanos viram um adolescente magricelo entrar na casa, cheirando a ovelha e com a aparência de quem precisava de um banho. Contudo,"o SENHOR disse: 'É este! Levante-se e unja-o'" (16:12).


Deus viu o que ninguém viu: um coração que o buscava. Davi, apesar de todos os seus defeitos, buscava Deus assim como uma cotovia procura o nascer do sol. Ele buscava o coração de Deus, porque esperava no coração de Deus. No final, é tudo o que Deus queria ou precisava... quer ou precisa. Outras pessoas medem o tamanho de sua cintura ou de sua carteira. Deus não. Ele examina corações. Quando encontra um co­ração que está nele, Deus o chama e o reclama para si.



Max Lucado